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ESCRITOS

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publicados neste site, a partir de janeiro de 2010

publicados no blogue reflexos, entre Setembro de 2007 e Dezembro de 2009

 

publicados neste site:

credo pela dualidade humana

da inigualável mutação

experiência de escrita

para além do qual não há retorno

silêncio significante

por nada deste mundo

 

publicados no blogue reflexos:

Demanda por lugar nenhum

Dilacerado e ausente

Monólogo ensurdecedor

Delineado na desilusão

Torrentes sem nexo

Em desassossego, sem paralelo

Em torrentes profundas e inconstantes

Paisagem inacabada

Ilusão sem dúvida

Tristeza de um sentimento profundo

Trevas sem luz

Tapeçaria entrelaçada de matizes profundos

Dar o dito por não dito, depois de muito pensado...

Estertor definitivo

Brevidade incerta

Adversidade em espera

Propósito insondável

Semblante sem cor

Sordidez sem mácula

Por entre terrenos agitados

Melancolia sem dor

Entre tanto e tão pouco

Indeléveis tormentos

Congruências díspares

Transitório deleite

Do infinito positivo ao negativo

Etéreo, como o mar

Momento presente

Escuto, em silêncio

Sem resguardo possível

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credo pela dualidade humana

Encontro, na disparidade do tempo enevoado
Salpicado de trânsitos intensos de dicotomias dispersas,
Dúvidas incertas das incertezas oblongas de tormentos azuis
e de brilhos dispersos, entre quietudes imersas no inquieto devir.
Sem sentido
Corre, unidireccional e sem fim à vista
sem um desígnio personificado que denuncie o futuro
que se consubstancie em axiomas ou desvenda segredos
e que vulgarize a eternidade por breves momentos
de intenso deleite, que nos confronta com o todo e com cada parte
do nada
ausente,
num oblíquo instante que se prolonga
rasteja sem esperança de se poder erguer
por caminhos dolorosos que há-de sulcar e calcorrear insensatamente
até ao início do fim

vera viana, 25 de Outubro de 2010

 

da inigualável mutação

desvendo-te pela dualidade, na ausência prolongada desta metamorfose inconclusiva
que se espelha infinitamente na inquieta ternura do alcance insatisfeito
e incompleto
que se prende e encarcera, sem sentido, por dúbios sentimentos
ausentando-se, por breves instantes,
na incerteza insegura da solidão coexistente em planos contraditórios.
é de dor que se escreve, da frustração incaracterística que se estende pela procura incessante de objectivo
porem breve, frívolo, fugidio
tão presente quanto a dor física da ausência
tão dolorosamente presente
aqui, na incerteza da ausência
por breves, cálidos e ardentes segundos
de estremecimento inexistente, na insólita presença de lugar nenhum

vera viana, 03 de Outubro de 2010

 

experiência de escrita

experiência 1

Por estes dias, apeteceu-me tentar escrever um conto. Apesar de saber como termina, não sei que caminhos há-de trilhar. E começa assim:

Acordo.
Olho para o lado da cama e vejo a ausência, recortada na dúbia presença de duplo sentido, da causalidade sem nexo nem alma.
Era mesmo esta sensação que me faltava ao acordar – a do negro desapontamento, a da morna insatisfação da solidão e a consciência do isolamento em que tenho vivido. Sempre.
Mas vamos acordar - levantar é preciso, ainda que sem motivo para o fazer.
A manhã já vai longa e cinzenta. Chove lá fora, aquela chuva miudinha que nos incomoda e nos gela a alma se a aguentarmos por muito tempo. A tristeza instala-se na consciência e fica para o jantar, ou talvez mais, se a deixarmos.
Seguro um cigarro entre os dedos e acendo-o sem o olhar, sem o sentir. Sabe tão bem saboreá-lo, antes de qualquer outra coisa… talvez fume há demasiado tempo, há demasiados anos. Ou décadas. Mas sabe-me sempre como o primeiro. Ou como o último.
O dia de ontem vem-me à memória, renovando a consciência da desilusão e pesar que se liquefaz por entre o fumo que se me escapa entre os dedos.
Dirijo-me para a cozinha e aqueço o café de há três dias, que me serve como num dia qualquer e detenho-me a contemplar a caneca, usada, negra de tão usada, à espera da reforma que lhe nego, uma e outra vez, obrigando-a a cumprir a sua função até ao fim dos seus dias, até ao final dos tempos, até que se queira quebrar. E porque não hoje? Atiro-a contra a parede com força, desfaço-a em mil pedaços, libertando a sensação de uso e de abuso de um objecto que já me deu tudo o que tinha para dar. É melhor sacar de um copo ou coisa do género para beber o café. Começamos mal, mas começamos…
Não tenho nada por que me levantar, ninguém que me aguarde com impaciência, nenhum serviço incompleto que precise de mim e unicamente de mim. Porque o que faço, qualquer um o pode fazer. Pois que o faça, eu não quero saber, fico-me por aqui a contemplar o café morno, bebendo-o, entrecortado pelo fumo cinzento e desiludido.
O dia de ontem passou e com ele qualquer réstia de esperança. Não vale a pena continuar, dei tudo o que tinha para dar, fiz tudo o que havia para fazer, até á exaustão. Já de nada vale a pena, ninguém procurará por mim e me virá perguntar como me sinto ou como me tenho conseguido aguentar. Estou só, como sempre estive, mas desta vez a consciência do facto é mais presente, audível como o silencio gritante que se anuncia por entre as paredes e se dilui pelos eternos minutos do relógio de parede. Atrasado cinco minutos, sempre atrasado cinco minutos, por mais vezes que eu o acerte, lá volta ele ao atraso de cinco minutos, como se aquele fosse o tempo próprio dele e não aquele com que nos controlam a vida.
A vida. O que aconteceu até aqui, todos os momentos de fúria, toda a insanidade dilacerante que se apresentou sem aviso e me fez agir de modo adverso ao normal, ao aceitável?
E o que fiz eu, que poderia ter feito de diferente? Terei agido de modo tresloucado, como uma velha senil, ou demente ou como um epiléptico sem remédio? E como poderia ter agido de outro modo, se não sei, de antemão, a direcção que tomam os meus sentimentos e de onde provém toda a violência que em mim sinto? Como poderia saber como agir a seguir àquele doloroso momento em que vi o que vi, senti o que senti, pensei o impensável, disse o indizível e reagi violentamente, sem apelo nem agravo, sem contemplações fúteis nem escusadas delicadezas?
Sabe-me tão bem o sabor do cigarro. Finalmente algo me dá atenção e se preocupa comigo – uma beata carcomida e sorvida até ao tutano que, a espaços, me vai satisfazendo. O ego...?
Termino o café, apreciando a borra no fundo do copo – ditará o meu futuro, a partir deste momento? Que forma tem esta mancha? Imprecisa e indefinida ou bem marcada e trivial? Meu deus, preciso de outro cigarro, antes que tome consciência desta inutilidade…
Volto para a cama ou ausento-me na contemplação do infinito que não me leva a lado nenhum? Que só me faz dispersar a mente pela vulgaridade dos sentimentos do dia de ontem, pela frieza das criaturas que me rodearam e aguçaram em mim o sentimento de não pertencer a lado nenhum, de ninguém me poder acompanhar pelos enlameados e taciturnos degraus de uma vida sem causa, sem propósito ou companhia.
Vou para o pé da cama, mas detenho-me a contemplar novamente a ausência do outro lado da cama, do que poderia ter sido, se. Se, se, se… Demasiadas condicionantes para um mesmo e único fim.
Foi um pedaço de mim que se dispersou por entre aquelas paredes sem cor e sem brilho. Uma tristeza inaudita, um território nunca encontrado a que pudesse chamar de lar. Tudo o que aconteceu antes levava à mesma conclusão, à mesma evidência, mas evitei encará-la de frente a todo o custo, sem sequer a olhar de cima para ter uma visão global da coisa. Da coisa em si, do acontecimento em espera ou do facto consumado. Tivesse alguma vez pressentido a ventania aziaga que se fazia sentir, e poderia tê-lo evitado, ou assim o quisesse. Talvez tenha caminhado para a destruição conscientemente, despudoradamente. Sem pensar duas vezes, sem ponderar as consequências que agora me fazem sentir assim – imprestável, inábil e corrompida, até ao limite.

experiência 2

Não sei o que deva fazer a seguir. Ficar, fugir? É tudo demasiado doloroso, todas as frestas na parede mo recordam, toda a mágoa recalcada pela violência, marcada pela fealdade do momento em que, por fim, cedi.
Porque é que tinha de acontecer? Momento errado, local errado? Uma das poucas certezas na vida que podemos ter é a de que, mais cedo ou mais tarde, a espiral imunda e negra dos acontecimentos delineados na podridão da mente humana nos apanhará, a teia infecta tecida em momentos de vileza sórdida e agreste nos agarrará, impedindo-nos de fugir.
Atropela-se na minha mente um sem número de recordações, que me fazem retroceder pelas escadas íngremes da desilusão extrema e das profundezas do abismo sem retorno. Sorvo mais um gole deste café imundo e agarro-me à réstia de realidade que se consome no fumo do cigarro, de odor intenso e vibrante.
Negro, profundo e errático.

experiência 3

Demasiado tempo, demasiado, que se esboroa por entre o delicado entrelaçado dos nossos dedos e que nos faz sentir se não teremos ido, mais uma vez, um pouco além do que deveríamos, forçando a corda mais um milímetro, até ao desastre total que se adivinha por este lados.
Não era suposto que isto acontecesse, não tinha, do todo, sido programado que tal pudesse algum dia acontecer, mas foi o que sucedeu, e não há volta a dar, nada a fazer, quando as evidências nos apontam na mesma direcção, a do infindo e breve pesar, sem limites recortados em papel ou decalcados da laje fria e lazarenta aos nossos pés.
Recordo-me de um outro tempo em que tudo era diverso do actual, tudo era diferente no essencial, e se diluía continuamente em terrenas, inconsequentes incertezas sem propósito nem agravo considerável.
Em atropelos continuados, os soluços sobrepõem-se às palavras que poderia proferir, aos sentimentos que poderia definir, aos acontecimentos que poderia imaginar. Já nem o cigarro me conforta, de tal modo sorvido foi, já nada lhe resta, tal como a mim. Vazia por dentro, desprovida de conteúdo, uma massa ausente de sentido e informe na ligeireza distante da luz difusa que preenche esta sala aonde me encontro.
Detenho-me um pouco mais por entre estes negros e profundos instantes decepcionantes, mas sinto, está na hora de partir. Tenho de tirar as calças, recordam-me demasiado de tudo o que aconteceu, perfuram-me a mente com recordações obtusas e inconvenientes.
Tenho de sair, agora. Visto uma coisa qualquer do monte da roupa. Se estes pormenores nunca foram importantes, neste momento, ainda menos o são. Qualquer coisa serve, quem estará lá para me dizer que deveria cuidar do meu aspecto, que deveria fazer jus ao meu género? O cabelo desalinhado fica, não tenho por quem o cuide, para quem o penteie. Isso tudo acabou, ontem, foi-se, como um pedaço imprestável de papel, um fragmento partido de um copo, uma beata sorvida até ao fim.

experiência 4

Não posso sair, não posso. Não posso sair de casa sem ele, mas não o consigo encontrar, no meio desta confusão que se tornou o meu espaço. Recordo, por segundos, o tempo em que nada disto era assim, em que todos os acontecimentos da minha vida eram ordenados e reflectidos, quando nada era deixado ao acaso. Por míseros segundos, fragmentos de como tudo era antigamente, dissipam-se em breves instantes para darem lugar à triste realidade de hoje, à ausência de um fio condutor que me direcciona, neste caminho sem sentido, de múltiplos trilhos que me transportam para um único e errático fim.
Procuro, procuro, no meio do caos desordenado que esta casa se tornou, e, às tantas, encontro o caderno onde registo a minha vida, os meus tormentos, onde desenho percursos possíveis para uma fuga deste labirinto insondável, sufocante, omnipresente. Mas por mais que trace linhas sem paralelo na realidade, delineando um percurso difícil e penoso, pleno de cruzamentos sem intersecções, depois de vaguear por círculos intermináveis e submergir em espirais infindas que me transportam ao abismo, regresso sempre ao mesmo ponto de partida – o da inutilidade da procura, da imensidão que se desbarata na conquista do nada, na vacuidade definida em acidentes de percursos inexistentes.
Tenho de sair daqui, e depressa.
Tranco a porta atrás de mim e deambulo pelas escadas imundas, encardidas de tantos outros a traçarem percursos idênticos, escada acima, escada abaixo, sempre a caminharem para o mesmo triste destino que aqui não se encontra, porque o ar é demasiado opressivo para que o consigamos aprisionar. Haverá alguma coisa na vida que nos pertença de facto…? Não, não é aqui, nesta imundície de almas que se atropelam entre si e que nos incomodam, até termos de dizer - Basta! Larguem-me que eu não vos pertenço!
Tenho de sair daqui

experiência 5

Saio para a rua e deambulo por entre rostos perdidos na imensidão desta tristeza colectiva que se adensa na mesma medida em que tentamos aprofundar a sua razão. Farei parte deste colectivo anónimo que se atropela por entre caminhos inconsequentes? Não o creio, embora a permanência da lembrança do que aconteceu mo recorde incessantemente, me martele continuamente as têmporas, obrigando-me a contemplar o vácuo em que a minha vida se tornou e o abismo para onde converge. Quisera ter decidido de modo diverso, ter voltado um passo atrás e recusado contemplar o negro profundo que se escancarava perante os meus olhos, forçando-me a mergulhar num remorso sem precedentes.
Fugir, em suma, ter corrido com toda a energia que me restava na altura e da qual ainda guardo um pequeno farrapo, de modo a que tudo pudesse ter sido diferente deste agora irreversível que me aprisiona e sufoca, impedindo-me de vislumbrar nem que seja uma ténue réstia de esperança.
Mas continuar, é preciso.
Apercebo-me novamente destes rostos cansados da multidão imensa que me rodeia. O que faço aqui? Tento fixar um único olhar que seja, mas apenas o vazio me retribui o olhar. Tento, uma e outra vez, encontrar um qualquer vislumbre de humanidade nesta massa informe e sem sentido. Por instantes, creio detectar uma centelha de reconhecimento, mas de tão ténue que é, desmorona-se em fragmentos de algo que nunca chegou a existir.
Não sei que faça, nem a quem me dirija.
Preciso de um cigarro como de uma tábua de salvação encontrada no mar alto e calmo que me levará a lado nenhum. Imersa por instantes nesta imagem e no destino que me aguarda, acordo para a realidade do fósforo aceso que me começa a queimar os dedos.
Apesar de tudo, sabe bem reencontrarmo-nos neste apelo à realidade, ainda que por entre breves e entrecortados instantes, perdidos que estamos nesta encruzilhada de caminhos sem fim à vista.

experiência 6

E de novo a tristeza se agiganta por torrentes de fingida decepção, remetida ao silêncio entre tormentos que se avultam pelos degraus da inconsciência, e calam fundo num instante silencioso que intensifica a dor que outrora senti. É penoso voltar a pensar no assunto, remoer sem sentido no lodaçal que se adensa agora, por me ter submergido um dia, ainda que por breves e dolorosos instantes. Pensar é-me doloroso, reflectir penoso e tristemente trivial, mesmo sem que me possam indiciar qualquer hipótese de reflexão inconsciente, em momentos de negra depressão que, a momentos, se aproxima e me agarra, com garras tão afiadas quanto as gélidas torrentes do vale que nunca pude contemplar.
Tão pueril e tão maduro, simultaneamente, que interna e externamente se digladia em discussões sem nexo, sem propósito, que só me fazem recuar e recolher ao obscuro sentimento da frustração e da sempiterna incompletude, dos caminhos negados e dos obstáculos que me aprisionam no nada em que me sinto.
E tudo porquê, para quê? Para isto, para um zero absoluto dentro de um inconstante nada e de um omnipresente vazio que se vai adensando num buraco negro sem fim e sem retorno. Para nada.
Quem dera por vezes a indulgente fragilidade de sucumbir e o talento para desistir, livre e conscientemente, perante qualquer obstáculo em vista. Quão mais fácil seria fenecer e deixar que a energia se extinguisse de um momento para o outro. Presentemente, a minha consome-se na frustração de não poder agir e na impossibilidade de conseguir reagir.

 

para além do qual não há retorno

desenho, nas margens do infinito
um traço contínuo de desilusão
entrecortado de breves carícias, a coberto de delicados prazeres que se distanciam, lentamente,
na torrente inexorável que se dilui no tempo e no espaço ausente
imaginando o outrora, como teria sido sem esta certeza
sem esta mágoa profunda

recorta-se o fundo da figura que se afasta, esvaziando-se de sentido, de som e de forma
cimentado no brilho vazio de sentimento e no recorte silencioso que se dissipa por entre rumores
personificando ressentimentos reais
e diluindo-se na morna contemplação do passado, imiscuindo-se na trémula visão de um futuro longínquo, incerto
que se distancia do silêncio deste presente
num pormenor concreto e observável
num detalhe ínfimo e palpável
de uma pressão férrea que se contrai, vívida e exangue
e se prende em questões sem significado nem ponto de retorno
na coragem que se esbate na incerteza distante do precipício criado
e sonegado

vera viana, 27 de Junho de 2010

 

 

silêncio significante

há um murmúrio dissonante por entre o ruído ensurdecedor da maré
uma vaga recorrente
plena de significados múltiplos e de intermináveis interpretações.
indizíveis palavras
tormentosos instantes
infames segundos
de extremidades afiadas e acutilantes arestas
vivos na agressividade latente
e tenebrosos no estertor final com que se dilaceram intenções e se materializam desejos.
se fosse possível

divergindo do tronco nu
ramificando-se por fragmentos delicados de uma frieza constante
absorvendo a efémera energia que a terra lhe fornece
e em si fenece
em si converge e se interpenetra
dedos entrelaçados que se apertam
fluidos que se unificam e repelem
temendo o silencio e o mistério
do indomável devir
incessante na tristeza inútil do encontro fortuito
vazio na luminosidade inócua, estéril e desencontrada
de segmentos poluídos no clamor da inutilidade

vera viana, 22 de Junho de 2010

 

 

por nada deste mundo

finito, no tempo e no espaço.
sem contemplações inconvenientes,
sem conquistas nem triunfos alcançados,
salvo um.
a melancolia dissipa-se por fragmentos de desilusão,
prenúncio da solidão que aguarda, indolente.
reclusa na eterna intempérie da desilusão do humano,
do por demais importante, do que não retribui.
na mística da ausência presente e no mistério do que se avizinha.
do que me assalta, desatina e perturba,
e do passado que se esboroa,
do futuro que se divisa, sem certezas à vista ou convicções.
nada.
fugazes momentos de contemplação e o pasmo, incrédulo,
pelo irreversível, intolerável, incompreensível.
inaceitável.
não existem verdades inabaláveis
não existem certezas indestrutíveis
tudo é como sempre foi e sem que disso houvesse consciência.
só.

vera viana, 17 de Junho de 2010

 

 

 

Demanda por lugar nenhum

As trevas vigiam a escuridão infinda
Sentem prazer na contemplação, pura e simples
Atormentam a luz, tão delicada e delicodocemente,
Que, inversamente, se refugiam na densidade da dor
E regurgitam, no frémito pesar da ausência contida.
Uma e outra vez regressam aos tremores inacabados,
Ás vibrações cadenciadas e abruptas, sem demora.
Num deleite infindo que os não preenche, que os não completa
E que, por mais que se esvazie, nunca há-de colmatar o vazio
E satisfazer a procura incessante, inacabada, incompleta.
Algures, no supremo litígio dos vendavais supremos,
Em torrentes que se liquefazem continuamente,
Uma e outra vez.
Em vão.

vera viana, 07 de Dezembro de 2009

 

 

Dilacerado e ausente

Dilacerado, pueril, insípido, trémulo e vago.
É quanto me ocorre no acto de escrever.
Entre tesouros de inconstante fulgor e brilhos de estrelas sem luz
Pela dor inconstante da ausência de amparo,
Flutuo pela tristeza indolente de um segundo, inexistente e incessantemente fugaz.
Desvanecem-se, dispersando-se, na incerteza do quanto poderá ainda existir,
Enquanto me degladio, entre florestas bravias de desentendimentos
E inactividades sem recuperação possível.

Tremendo, contemplo esta existência,
Esta brevidade que se quer constante e que sem cessar nos escapa,

Perdendo significado, entre disparatados confrontos que calam fundo em mim

E agonizam, por ausências breves de contornos mil.

vera viana, 05 de Dezembro de 2009

 

 

Monólogo ensurdecedor

Tricontaedros dilatam-se, divagando sem destino pelo espaço incólume de significado pueril,
Completando existências breves, de tristezas silenciadas na solenidade do momento.
Ausente.
Sem assentimento nem aprovação, sem certeza alguma,
Nem sequer da indolente rigidez ou do rigor extremo e definido,
Pausadamente contemplativo.
Delicadamente sinistro e tormentoso, entretém-se na intempérie sinistra de incontáveis ternuras e indizíveis carícias.
Por incomensuráveis afagos que se prendem, alongam e reflectem
em toda a ausência perniciosa, por breves segundos de contemplação gritante
Capturados em rígidos contornos de uma fealdade ignóbil
E vil
Em estertores imensos que caminham para um triste destino que permanentemente se afasta
E dilui, no duplo sentido da causalidade de lado nenhum.

vera viana, 25 de Abril de 2008

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Delineado na desilusão

A dicotomia do olhar prende-se em questões sem significado
Que se distanciam de mim, inscrevendo-se na rigidez de duplo sentido no infinito azul.

Decadente e ausente, presente e pretérito de futuro nenhum.
Tristemente se desvanece perante a ausencia de contemplação,
Encontrando o conforto desejado na rigidez dos breves segundos de vislumbre do segredo...

vera viana, 01 de Março de 2008

 

 

Torrentes sem nexo

O significado desvanece-se na intempérie enevoada do pensamento triste
Enaltece-se a memória, transparece e liquefaz-se em ternuras dissimuladas,
Prenhes de explicações dúbias e sem sentido, que decorrem em segundos ausentes,
Enamoradas por tristes recompensas que enternecem a alma mas enegrecem o ser.

Quisera repousar no leito alvo da manhã sem cor,
Franquear o portal do desconhecido com a certeza do dever cumprido,
Da constante procura sem fim, na incessante batalha pelo lugar de ninguém

vera viana, 01 de Março de 2009

 

 

Em desassossego, sem paralelo

Trémula, de insatisfação,
Contemplo o momento fugidio passado e presente.
Decorreu uma eternidade sem nome
Por entre décadas de amargor profundo e de rotundos dissabores experimentados,
Escorrendo, delicadamente, por entre os dedos.

Detecto tristezas infindas, sem razão aparente de existirem
E percorro este espaço longínquo que nos separa da brevidade inesperada.
Por entre torrentes de valor escuso e ternuras de um prazer
Indizível, quase inconfessável.
Ecoando na luminosidade crescente deste imenso prazer da procura,
Pela satisfação no conhecimento e da sede do saber
Afasto-me da realidade material, tão incompleta quanto incompreensível.
Enterneço, todo o meu ser, ante a promessa da existência de Algo mais,
Que transcenda a irrealidade ilusória deste quotidiano comum,
O que desabrocha e floresce em rebentos mil,
Nas cores do firmamento e nas luzes das novas descobertas que se avizinham
E que todos os dias se entrevêm, imediatamente antes de fenecerem e se extinguirem,
Para sempre.

Promessa de tantas virtudes e tão magna vontade de viver,
Prolongo em ti o todo do conhecimento que gostaria de abarcar.
Toda a consciência, toda a serenidade, todo o ser,
Enlevado pela magna ciência , pelo véu místico e ilusório da realidade que nos circunda e se interpenetra
Nos interstícios que se delongam por entre a contemplação ausente.
E mais não digo, aguardo, enquanto procuro uma resposta...

vera viana, 26 de Dezembro de 2007

 

 

Em torrentes profundas e inconstantes

O território difunde-se pelas fronteiras móveis da intempérie visível
E entre breves instantes da delicadeza subtil,
Ilumina-se a corpórea imaterialidade desta sensação infinda.
No momento ausente, na repetição inconstante
Em ritmos sincopados de morna satisfação,
Recheados na dissertação eloquente das palavras presentes,
Ergue-se, trivial e distante, ténue,
A tristeza da sensação gélida, do calor momentâneo, no interior denso e profuso,
Que se liquefaz em torrentes discretas de inconstância audaz.

vera viana, 27 de Novembro de 2007

 

 

Paisagem inacabada

Inconstante, breve e fugidio
Trémulo e convulso, em territórios perdidos, sem fronteiras delineadas
O significado irrompe, em todo o seu esplendor,
Durante segundos deliciosos de devassidão terrena.

Esconjurando toda a existência desalinhada de breves vitórias,
Encontro trâmites de incertezas várias,
Fugazes e monocórdicos, vazios de sentido e de forma.
É assim que te encontro,
Na portentosa crueldade que advém do inexistente sentido de certezas,
Embebidas em ambiguidades, numa diluição atonal
Que enternece o mais duro coração.
Ante a visão do leito rubro e vermelho de tantos instantes passados,
Em desassossego profundo,
O que se imiscui no mais recôndito e grave som da ternura aprisionada
Em caixões histéricos, de nulidade fugaz e ausente.
Para sempre.

vera viana, 22 de Novembro de 2007

 

 

Ilusão sem dúvida

Desenho linhas incompletas de sentido vago
E envolvo-me na incerteza do momento fugidio.
Entrevendo torrentes líquidas de informe candura,
Detenho-me, perante o absurdo da brevidade existencial.
Quer-se intensa a procura, frutífera a viagem, na infinidade de caminhos em aberto
Que se vislumbram, luminosos, promissores,
Mas que ao mesmo tempo se fecham
Em profunda clausura, sob pousios incompletos de sacrifício comum.

Enlaçando todo o meu ser no entrançado de destinos mil
Teço uma tapeçaria policromada, sem teia nem trama.
O propósito torna-se cada vez mais longínquo e inalcançável.
As comparações são inúteis e só me trazem a insatisfação desmedida,
Sem discurso lógico ou coerente.
As justificações atropelam-se em catadupa,
Mas nada nos demove,
Nada nos impede,
De seguir este caminho, recortado de desilusões,
Com a certeza da delícia do conhecimento,
Do prazer da procura, nesta batalha perdida e vazia de objectivos.

Lamento profundamente esta certeza,
Que me faz meditar e ponderar sobre o que me faz a mim,
Ser imperfeito porque humano,
Pessoa, mãe e mulher
Que procura respostas aonde não as há,
Numa floresta de incertezas e insuficientes conquistas,
Sem almejar nada além do fim.
Procuro sem encontrar, mas não encontro sem procurar,
Sem um árduo caminho a tecer, sem um duro percurso a trilhar.
Para concluir, enfim, que tudo foi
Inútil, inconsequente.
O que quero, o que procuro, o que me satisfaz,
São fugas da realidade, percursos a trilhar perante o desconhecido que se avizinha
Na decepção amarga do final que a todos espera.
Fujo do final, detenho-me a meio do caminho, sem saber qual.
Sem saber porquê.
E transponho, então, a última barreira... a que me levará além do Nada.

vera viana, 19 de Novembro de 2007

 

 

Tristeza de um sentimento profundo

Decantado foi o véu que perfurou as trevas recortadas em Azul de Prússia,
Trocando o limite imposto pela intempérie da desilusão,
No delicado traço deixado pelos caminhos perdidos, em direcções inexistentes e sem fim.
Que se completam e encerram, no traçado inconstante de insuportáveis rectilíneos angulares,
que dilaceram, queimam, corroem, consomem a árvore ancestral até ao último ramo,
Até à ultima réstea de sentimento negado
Pela recusa, pela insensibilidade, que fez com que degenerasse em profunda decepção.
E afinal, com que propósito?

vera viana, 05 de Novembro de 2007

 

 

Trevas sem luz

Sinuoso é,
Portentoso é,
Corredio é,
O nó,
Entrelaçado de dor e de meditação.

Tremo só de pensar no instante em que o vidro se deliciará
Na intempérie pétrea do momento liquefeito em mornos desejos de contemplação,
Na profundidade abissal e plena do terror vácuo, por entre o firmamento escuro e encantador.
Este, que me entristece e atormenta, mas rapidamente, esquece quem o contempla,
E, considerando a plenitude do momento que se escapa entre os dedos gélidos,
Prossegue o seu caminho, sem fim, até ao precipício luminescente da luz negra.

vera viana, 05 de Novembro de 2007

 

 

Tapeçaria entrelaçada de matizes profundos

É difícil de entender a teoria incompleta do Caos
Que rege a nossa existência, nem sem-número de incertezas estéreis,
Por entre percursos de efémera brevidade,
Aquela que define os nossos caminhos existenciais,
Nesta procura inglória e infinda, pela solução do eterno problema sem solução...

Correndo por entre trajectos sem alma nem cor,
Por entre encruzilhadas perdidas, em desespero e amargura,
Vislumbram-se os matizes que se interpenetram nesta tapeçaria multicor.
O torpor lânguido de inconsciência feito, de ternuras indizíveis,
Enternecem o mais lauto e sólido rochedo que representa, em nós,
A certeza férrea da crença entoada em uníssono.
Que ecoa, premente,
Que entoa, continuamente,
A Música que se ergue, avassaladora e nos guia, enaltecendo o pesaroso caminhar
Até ao mais alto pináculo, da torre mais alta, no promontório terreno da vontade suprema.

vera viana, 04 de Novembro de 2007

 

 

Dar o dito por não dito, depois de muito pensado...

Tenho reflectido muito sobre os comentários que fizeram ao meu "Estertor Definitivo" e sobre outras reacções inesperadas de que tive conhecimento entretanto...
Antes de mais, agradeço, do fundo do coração, a quem deixou comentários, tanto neste como nos outros posts. Agradeço em particular a quem não me conhece pessoalmente e se deu a esse trabalho, ultrapassando a barreira imensa do desconhecimento que nos une nesta esfera imaterial que possibilita todos os encontros, ainda que impessoais.
Tenho lido alguns escritos das pessoas que me fizeram comentários, tenho vontade de dizer-lhes algo, mas sinto algum receio em comentar os escritos de quem, efectivamente, não conheço pessoalmente (acho que ainda não entrei no espírito da coisa...).
Obrigada, pois, por mostrarem que têm algo para me dizer, o que muito me toca e até comove.
Procuro sempre incentivar aqueles que conheço e sei poderem ter algo a transmitir de novo, a criarem, a se expressarem, a nos mostrarem um pouco daquilo que faz de cada um de nós uma entidade única, nesta massa imensa de personalidades diferentes, poucas vezes em uníssono.
Se sentes vontade de criar, de te expressar, de libertar a tua criatividade de alguma forma, fá-lo - a possibilidade de criação é uma dádiva que não se deve deixar esmorecer e que se deve exteriorizar, dar a conhecer, quando disso sentimos necessidade, consciente ou não.
Neste sentido, repensando uma decisão que tomei anteriormente (fruto de momentos de profundo desânimo, em que pensei que mais valia continuar com o monólogo só para mim, em vez de ter a ilusão de que poderia ser partilhado por mais alguém) e graças às reacções recebidas, tentarei, na medida do possível, voltar a exteriorizar um pouco do que sinto, agora com alguma certeza de que alguém estará disposto a ler-me, quiçá a destrinçar o quanto tenho de indecifrável...
Utilizarei este espaço privilegiado para dar a conhecer alguns trabalhos de outras pessoas que tive a feliz oportunidade de poder incentivar a criar e que espero que continuem...
A todos, um profundo agradecimento e até breve.

vera viana, 29 de Outubro de 2007

 

 

Estertor definitivo

Profundo é o enredo do diagnóstico a tecer,
Penetrando pelos interstícios de um tecido complicado demais para ser entendido,
Emaranhado na eternidade de um segundo distante
Como um terror ausente, que lenta e inexoravelmente se aproxima
E repentinamente se afasta, para não mais regressar,
Deixando-me absorta, não mais me atormentando a alma,
Perdida no exercício da elasticidade tecida na espiral do Tempo.

É com desdém que contemplo agora a morada de ninguém que se aproxima,
Da ausência que se oculta por detrás dos temperamentos remanescentes do dia agora findo,
Para sempre disperso, existindo no limbo...

O meu último post, mas não o meu último escrito.
Este tipo de publicação dos meus escritos tem-me decepcionado,
pelo que não lhe darei mais continuidade.
Não tenho outra forma de lhes dar visibilidade, ficarão sempre comigo...
Agradeço muito a quem me leu e comentou, e em especial a quem me incentivou a começar.
Até sempre.

vera viana, 17 de Outubro de 2007

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Brevidade incerta

Divagando por entre lampejos de sombra recortados no poente,
Entregamos a nossa alma ao refluxo de encontros imaginados.
Suculento é o fruto da limalha poeirenta que se espalha e
Que preenche os socalcos suspensos na eternidade do ocaso.

Na imensidão do infinito olhar da morte,
Mais certa do que a certeza do nascimento,
Ponderamos a razão da nossa própria existência
O absoluto desnorte do nosso caminho e as razões da nossa própria fragilidade.
O declínio decorre sem alarme, pelo veio interno do sétimo céu que constantemente nos escapa,
Por entre os dedos férteis das trocas desencontradas
Nunca conjugadas em uníssono, mas existentes em espaços e tempos distintos
Pelos prolongamentos da existência que teima em não querer cessar.

Percorremos este caminho de fragilidade tensa e coerente
Por entre delicados trechos de certezas inconscientes,
Que retemperam e definem as nossas próprias tormentas, estéreis e secas,
Como vulcões extintos que se prolongam pelo primordial gotejo do delicado momento
E se entristecem, tomando consciência do que não têm,
Nunca poderão ter.
Resta-nos apenas a certeza de procurar, na sempiterna densidade maravilhosa da descendência,
Na conjugação das personalidades distintas e suas peculiaridades
E nos intrincados prolongamentos de superfícies inexistentes, em conjugação com os elementos imateriais,
A réstia do sonho prometido à espécie humana.

vera viana, 7 de Outubro de 2007

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Adversidade em espera

Ultrapassando a distância infinda entre as trevas e a brevidade da luz,
Decompõe certezas em dúvidas frequentes
Ambiguidades inabaláveis em axiomas inconscientes,
E enraiza-se no âmago da mais pura intensidade luminosa, translúcida como um véu matinal.
Meditando sobre o fogo entrecortado por tecidos vibrantes de humilhação,
Remete-se ao espaço contido do volume ausente, e medita
Decorando-o com as fibras despedaçadas pelos sulcos talhados na indecisão.

Pressinto e entendo essa virtude, a ânsia de tudo querer e nunca alcançar,
Esta sede pelo todo, que não se extingue, nunca se sacia
Embebida em lágrimas de frustração apática,
Entrecortada pelos recalcamentos das incapacidades sem dor determinada,
Mil vezes presentes, cem vezes negadas.
Preterida, declinada, no letárgico torpor do esquecimento fácil e decisivo.

O silêncio instala-se, impõe-se e impera por esta vertente,
Acentuada pela encosta íngreme de um novo abismo sem fim,
Que escorre por entre pensamentos fugazes de lugar nenhum,
Remetendo a faculdade de julgar e a capacidade de sentir
Por impróprios sentidos,
Por objectivos perdidos.
Para lado nenhum, à deriva.

vera viana, 2 de Outubro de 2007

 

 

Propósito insondável

Recorta-se no espaço exíguo da intemporalidade
Uma ténue sombra, na distância breve
Entre cortinas diáfanas de luminosidade vívida
Por entre formas delineadas em espaços de ausência.

Estranho este sentimento tão puro
E a torrente de pensamentos que cai em catadupa,
Pelos fragmentos de raciocínios dispersos,
Além das intempéries contundentes deste infindo Inverno.

Este momento presente escorre por entre os dedos
Como água volátil e dilacerante,
Que humedece a imortalidade das delícias sem nome,
Sem cor, sem forma recorrente e sem um título desigual que as defina.
É neste momento que a Razão ensandece
Temperando-se, aqui e ali, com laivos de insanidade
Que trilham novos caminhos inseguros,
Correndo, correndo, correndo sempre,
Por entre estradas já percorridas, com destinos difíceis de alcançar.

Fujo, pois, da insipiência e deste incompleto desafio
E procuro outros desígnios, novos trilhos a percorrer
Anseio por novos enigmas a resolver
Procuro exercícios, entre questões existenciais
Com processos de resolução de identidades desconhecidas
Para alcançar soluções desencontradas, na eternidade suspensa do último fim.

vera viana, 29 de Setembro de 2007

 

 

Semblante sem cor

Simulo uma normalidade que não vejo,
E revejo, entretanto, a demência total neste porvir em desalinho.
Encontro em ti a iridiscência de um negrume profundo, tão intenso!
...Enquanto transponho, calmamente, a fronteira da insanidade.

Quanto haverá ainda por debater, reformular e plasmar
Eternizar, no voo majestático da águia cinzenta
Que paira além, por entre o declive sinuoso da superfície plana, mil vezes fragmentada,
No silêncio sepulcral desta história inofensiva, contada e recontada vezes sem conta,
Interdita à inocência pueril da distância que nos une.

Frondoso é o gesto da mansidão
E magnânima é a tua atitude sem nexo.
Percorremos a imensidão no instante que decorre entre o supérfluo e o essencial.
Detectando sensações nesta história sem fim, sem início,
Sem enredo nem sentido algum,
Sem trejeitos de possibilidade.

Caminho intensamente até ao umbral que antecede o limbo comum,
Até ao precipício da ânsia desmedida e mergulho, sem restrições,
Neste líquido espesso que se dilui na água,
Que se funde, se desvanece e se transforma
Em lava, possante, incandescente e vigorosa,
Cândidamente, até ao fim.

vera viana, 24 de Setembro de 2007

 

 

Sordidez sem mácula

Neste momento dilacerado
Entrecortado de ignóbeis tragédias,
Vivo, no desencanto, toda a vivência inútil
Da validade vazia de um propósito significante.
Quanto de mim se entranha, em subterfúgios constantes
E se debate, ainda, uma e outra vez!
Qual onda em permanente colisão,
Vivendo uma cruzada sem destino a alcançar,
Em constante disputa contra a rocha estéril e nua
Na fortaleza das intempéries breves e solidárias, entre deliciosos suspiros voláteis.

Por entre o eterno e o breve,
Vivo este momento presente e intenso
Deliciando-me no brilho fugaz dos inóspitos céus.
É desoladora esta paisagem despida, vista do planalto de outrora
As escarpas são vivas, profundas, dilacerantes!
Sinto a seiva crescente no medo mundano,
que se eleva aos mais altos pináculos do firmamento negro da lassidão.

Entonteço e tropeço, degrau a degrau,
E percorro todo o caminho que me resta às cegas,
Até atingir o abismo alvo do meu ser, que se preenche
Na inquietude insensível do movimento oscilante.
E pressinto, com a força da intensidade que me percorre até ao último verso,
Num frémito nervoso e sentido,
A calma beatitude que antecede a tempestade
E que, calma e ansiosamente, espera por mim.

vera viana, 21 de Setembro de 2007

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Por entre terrenos agitados

Encontro-te sempre na negra quietude da presença dúbia,
Em significados ocultos, no ruído esotérico do instante fugaz
e entre todos os mistérios já percorridos.

O caminho a seguir é o que jaz aqui, adiante
Pelas nuvens humedecidas, ainda embebidas no terror ausente,
No sentimento escondido, por ruas empedradas,
Emparelhadas de indecisões e de certezas voláteis.
Entre escolhas sem alternativas,
Entre tijolos entretecidos no cimento de inconfessáveis virtudes,
Por entre pecados de intenso deleite, plenos da incapacidade vivida
E da mera possibilidade,
Sem alternativa de escolha para o livro arbítrio que a nós compete.
Revejo, entendo e prevejo, no temor eterno pela redenção divina
O teu intenso e profundo desejo pelo castigo imerecido.

Sempre em instrospecção, num fluir de palavras,
Dispersas, desconexas, encadeadas em nexos coerentes,
Encerrando todo o vislumbre da intemporalidade,
na luz difusa do astro, arrebatado e tempestuoso
Que penetra intensamente pelos vitrais da alma que a tudo transcende.
Descobertos, no âmago desta escuridão que nos confunde,
Ludibria, nega e recusa qualquer possibilidade,
Existe esta incerteza perdida de podermos concretizar o sonho inquestionável,
Agora, aqui e sempre.

vera viana, 16 de Setembro de 2007

 

 

Melancolia sem dor

Sinuosamente tropeço e deslizo, correndo e fluindo,
Declive abaixo desta montanha enevoada sem cume.
Fortaleza de incenso que se desenha no horizonte da minha intimidade
E se encolhe, enrosca e apaga na delicadeza felina deste instante.

O momento decisivo aproxima-se, porém, indefinido,
E os estilhaços abrem caminho por entre a escuridão sem cor,
De tantos receios sem nome,
De tantos achados que se perdem,
De tantas mudanças, das que nada mudam e tudo alteram.
Aproximam-se, ténues, indeléveis, sem que eu saiba
O que se passa, o que acontece, o que me espera, o que me escapa.

Delineio, em espaços que não encontro, espasmos e êxtases profundos
Para retemperar o sabor putrefacto do leite carmim
Por entre vertentes de muitos dilemas,
Tão delicados quanto o brilho diáfano de uma estrela morta.
Ofereço, na possibilidade de lado nenhum, de sentido algum e da procura sem destino,
O calor acromático da terra finita e do firmamento sem fim,
Coroado de luzes fátuas e de sabores amargos.
Conjugo verbos de sentidos disformes,
Registando-os no valor do que não tem medida,
Na hora sem mobilidade, na circunstância indefinida,
Trocando o claro prazer pela férrea obstinação do desejo.

vera viana, 13 de Setembro de 2007

 

 

Entre tanto e tão pouco

Enquadro, tranquilamente, o futuro no tempo presente
Esquadrinho o passado até ao limite do horizonte,
E entendo, em absoluto, qualquer definição de intemporalidade.
Enumero vícios, em repentes de serena convicção,
E encontro um caminho a seguir,
Explorando além dos recônditos do paranormal.

Envio, repentinamente, um dos meus escritos para a fogueira,
Expulsando-o de toda e qualquer influência desigual.
Esconjuro a beatitude, sem sentido nem norma
E enterneço-me com o clamor da noctívaga exactidão, suspensa na perfeição.
Envolvo-me, sem querer, com as razões que me atormentam
E encaro, frontalmente, a mais pura intuição de coerência.

Terno passado, que no Tempo presente
Tolda todo e qualquer vislumbre do futuro!
Trémula e inebriada, na abstracta insatisfação,
Tropeço nos degraus de contratempos imateriais,
nas impossibilidades desse relacionamento
E na timidez das dissonâncias vacilantes.

Trémula de novo, de olhar convulso
Toco no âmago do meu ser e
Tempero, com laivos de sensatez, as encruzilhadas das dúvidas ausentes.
Tanta intensidade no renascimento desse momento ausente!
Troco de pele e encolho-me, qual feto limitado à sempiterna indecisão do retorno...

vera viana, 07 de Setembro de 2007

 

 

Indeléveis tormentos

No contorno do pensar e na vaga melancolia,
Um deletério segundo, que oculta todo o sentido do mundo.
Quanto haverá ainda a desbravar nesta floresta
de significados, encadeados em torrentes de tristeza...

Desloco este lauto rochedo para além do horizonte
Até onde o meu olhar alcança e pondero
O conceito da infinitude, a própria plenitude do Tempo.

Que é da possibilidade de satisfação e a necessidade urgente de consolo,
aquele pelo qual tanto, todos, ansiamos, e que em lugar algum se encontra?

Ver "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer" de Stig Dagerman (1923-1954), uma alma atormentada de imenso talento, que encontrou no suicídio a sua "razão de viver".

vera viana, 02 de Setembro de 2007

 

 

Congruências díspares

Ecoa, na minha mente, um murmúrio lento e sedoso,
Simultaneamente crispado, mas tempestuoso
Entre traçados de impetuosidade, sem significado algum.
Ergue-se, no levante, a estrela da manhã, envolta num negrume imenso,
Negro, como só o luto de quem fenece o sabe ser,
Negro, como a paixão desmedida pelos mistérios do Oculto.

Existem, no sentido do verbo posto de parte e novamente encetado,
Dialécticas sonantes, tão inexplicáveis
Quanto o futuro informe, em tudo condizente com o tempo presente.

E é então que pronuncio aquela cadência final e me ergo,
Entoando um murmúrio silencioso
E contemplo o eterno senão,
Contemplo-o, de uma só vez,
Vislumbro o presente, o passado e o futuro,
Sem que os meus olhos o consigam compreender
Sem que a minha mente o consiga assimilar.
Concluo, sem pesar algum,
Quanto ainda resta, no meu ser, para Te consagrar
Quando ainda me falta para atingir o derradeiro final,
Tão seguro e certo quanto a certeza da morte última,
Quanto o troar de uma melodia inacabada,
Do gotejar redondo que me humedece o corpo e a alma
E decompõe toda a pureza em devaneios de consonância.

vera viana, 31 de Agosto de 2007

 

 

Transitório deleite

Quantos hemisférios se juntaram
Quantos segundos se eternizaram
Para a solução deste eterno conflito,
Entre a mente que se dissolve, na pureza do éter
E a necessidade orgânica do magma incandescente.
Em permanente colisão, choque de forças
Por conflitos de contrariedade e confronto de ideias,
Entre as montanhas despidas de solidão
E a mera possibilidade, sem futuro algum.

Em tempos, detive-me nesta contemplação,
Comparando-a com as nossas próprias contendas,
Observei o indescritível instante da ternura em revolução
Entre o movimento perpétuo e o profundo pulsar da discórdia,
Na possibilidade fugaz do momento que se proporciona.

vera viana, 29 de Agosto de 2007

 

 

Do infinito positivo ao negativo

Ao longe, distingo o enlevo dos dias benfazejos,
Contemplo o diálogo, com espírito aberto
E cumulo, para teu benefício, teares de palavras dispersas.
Encontro, porém, a satisfação dos momentos vividos
Na plenitude da etérea contemplação.
Posiciono-me, na obliquidade dos sentidos negados,
Descortinando o incessante presente,
No contínuo jogo de querer e não-querer,
Do sentido sem sentido, do passado sem presente.

vera viana, 27 de Agosto de 2007

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Etéreo, como o mar

E finalmente decido,
Compilando todos estes momentos de indelével riqueza
Em volumes de discernimento.
Encaderno a longevidade e a vida
Em fascículos entrecortados de desentendimento
Que consultarei para sempre,
Considerando-te, na plenitude do momento,
E na brevidade estéril do tempo presente.

vera viana, 27 de Agosto de 2007

 

 

Momento presente

A tua forma delineia a incorruptibilidade do imaculado desejo,
Encerrando vícios de candura difícil.

Este nosso desassossego, a todo o momento
Torna difícil o mútuo envolvimento.
Sei-o, com a triste doçura do cálido vento maternal.
Temo, sem cessar, o sentir da tristeza tardia
Quando o ritmo ocorre, silencioso.
Doloso tormento, mas de tanto significado,
que me consome por dentro, até ao auge.

Enquanto contemplo e me detenho,
Conjugo formas de entrelaçados sentidos
Sustendo a desmedida e imperecível plenitude.

vera viana, 25 de Agosto de 2007

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Escuto, em silêncio

Escuto a melodia que atribuis à violência das formas
Escuto-a no toque sagrado do poente, na perenidade do Ocaso.

Enterneces-me com a estória de vida desse ente sagrado,
Aquele, O intermitente, Omnisciente.
Deambulamos, na eterna existência de encontros desencontrados
Ante a possibilidade do acaso,
Agora e sempre, ante o pulsar da vida emergente,
E a solenidade do imenso porvir...

vera viana, 21 de Agosto de 2007

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Sem resguardo possível

Lamenta-se o pânico rotundo
Traça-se uma hipótese de futuro nenhum.
Por vielas de descontentamento profundo
Aonde sustentas a leveza do acontecimento.

E agora, pretérito imperfeito da vida
Mais que não seja, para obviar a tristeza.
Quisera alcançar a benesse desse futuro visível,
Na chama idónea do sentimento
No fluir do acontecimento.

vera viana, 20 de Agosto de 2007

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